Encerrando o primeiro dia do Conecta Varejo, painel apresenta os desafios do uso de IA no varejo

IA no varejo: especialistas mostram no Rio Innovation Week como aplicar a tecnologia no setor

Conecta Varejo apresentou casos reais de uso da IA para compras, gestão, análise de dados e aumento da produtividade no setor supermercadista

04/08/2026

Conecta
Encerrando o primeiro dia do Conecta Varejo, painel apresenta os desafios do uso de IA no varejo

Encerrando o primeiro dia do Conecta Varejo, painel apresenta os desafios do uso de IA no varejo

Fechando a programação do primeiro dia do Conecta Varejo com chave de ouro, o último painel do dia trouxe para o centro das discussões um dos temas mais urgentes do setor: "IA no Varejo: Realidade e Promessa". O encontro detalhou como a Inteligência Artificial deixou de ser um conceito futurista para se consolidar como uma ferramenta prática, capaz de transformar o dia a dia e a rentabilidade das empresas.

Para analisar o que já traz resultados concretos e o que ainda depende do amadurecimento das operações, o debate foi mediado por Luis Jairo, diretor de TI do Grupo Atlas Rio, reunindo Juedir Teixeira, CEO da JTB Consultoria; Bruno Moreira, CEO da Global IA; e Márcio Blak, diretor do Cotacompras.

O que já é realidade 

Fugindo das teorias distantes, os especialistas focaram no impacto imediato da tecnologia nas áreas operacionais. Segundo Márcio Blak, para o pequeno e médio varejista, especialmente no food service, a maior barreira sempre foi captar e tratar informações de forma simples. Nesse cenário, a adoção da IA foi comparada a um marco histórico da gestão.

"A IA vem como um facilitador, parecida até com o que o Excel foi lá atrás: no início ninguém sabia como funcionava e, hoje, é uma ferramenta básica em qualquer situação. No setor de compras, já temos plataformas na nuvem que ajudam a peneirar dados e inserir informações, sendo extremamente úteis na rotina", destacou Blak.

O diretor do Cotacompras explicou que a verdadeira revolução atual é o fim da dependência de relatórios complexos. "A tecnologia traz o detalhamento. Todos os dados gerados nas movimentações do Cotacompras facilitam a análise dos gestores. Podemos, por exemplo, comparar a inflação dos itens nos últimos 60 dias apenas fazendo uma pergunta ao sistema. A IA acaba com a necessidade de gerar um relatório para tudo", completou Blak.

Separando o entusiasmo dos resultados de verdade

Apesar do otimismo, o painel alertou que a tecnologia não faz milagres sozinha. O grande desafio dos varejistas hoje não é acessar a informação, mas saber utilizá-la. É preciso organizar a base da empresa e garantir a governança para que a inovação não vire apenas um custo.

"Percebemos que a IA está proporcionando um aumento enorme na velocidade da pesquisa, melhorando a produtividade. Mas o grande problema é saber o que fazer com tudo isso. Muitas vezes, o gestor tem um BI que entrega 200 informações diferentes, e ele não sabe o que fazer com elas. Esse é o nosso maior desafio hoje", ponderou Juedir Teixeira, CEO da JTB Consultoria.

Para solucionar essa dor, Juedir compartilhou sua experiência prática com a chamada "IA agêntica", que se trata dos sistemas autônomos que planejam e executam tarefas de forma inteligente, baseados em inteligência proprietária.

"Resolvi pegar toda a minha experiência, todos os arquivos que escrevi nos últimos 20 anos como consultor e professor, e passei 60 horas conversando com a IA para ensinar a máquina. Criamos uma ferramenta que está em fase de aperfeiçoamento. Hoje, qualquer pessoa pode jogar uma planilha no sistema e pedir uma análise profunda, e a ferramenta saberá o que fazer, sem que o usuário precise saber exatamente o que perguntar. A plataforma diagnostica, indica ações para correção e aponta resultados para ajudar o pequeno e médio empresário", revelou o CEO da JTB.

Processos ocultos e a visão integrada do ecossistema

O salto de produtividade também se reflete no tempo gasto pelas equipes com processos burocráticos. Neste contexto, a inteligência artificial atua diretamente no que o especialistas Bruno Moreira chama de "processos ocultos", automatizando análises que antes travavam a gestão de supermercados e redes de varejo, desde a escolha de KPIs até o controle de ruptura nas gôndolas.

"O varejista que vai criar tecnologia de valor perde duas ou três semanas apenas tirando relatórios e montando tabelas. Nas empresas em que atuamos, conseguimos reduzir para dois ou três dias tarefas que demoravam semanas. Além disso, se olharmos para pontas de congelados ou freezers da Kibon, já temos divisão computacional com câmeras gerando dados. Isso já é realidade nos grandes varejistas", explicou o CEO da Global IA.

Bruno ressaltou, contudo, que o futuro promissor do varejo mora na integração dessas soluções isoladas. "Entrar no GPT e perguntar sobre negócios ainda é algo desestruturado; precisamos de regras de desenvolvimento. A grande promessa é conectar todas essas pontas soltas, como unir a solução do Juedir com a do Márcio, por exemplo. Quando isso se conectar, teremos algo disruptivo fazendo a gestão completa do ecossistema, com o varejista parando de 'apertar botão' e passando a fazer análises estratégicas", projetou o executivo.

O papel insubstituível do ser humano

Em meio a tantas automações, o painel fez questão de desmistificar o medo da substituição. O preparo da equipe e a visão humana continuam no centro das decisões estratégicas, com a tecnologia atuando apenas como um suporte avançado para dar segurança aos negócios.

"A IA não substitui o ser humano; as decisões finais são sempre das pessoas. Ela proporciona, através dos dados, o empoderamento para que a melhor decisão seja tomada, tornando o trabalho humano muito mais qualificado. É preciso olhar todos os setores, como marketing e compras, com visão estratégica. Acredito que essa é a grande oportunidade para olharmos o negócio como um todo", destacou Juedir Teixeira.

O futuro se constrói no presente

A mensagem final do debate no Conecta Varejo foi clara: o lojista não precisa esperar grandes transformações para começar. O caminho mais seguro é aplicar a inteligência artificial nas dores operacionais de hoje, ganhando tempo e reduzindo desperdícios de forma escalável.

"A adoção vai crescer através de pequenos ecossistemas. Esse é o momento de começar, porque as empresas estão sedentas por essa mudança. As pessoas já usam a IA na vida pessoal e entendem o quanto ela pode ser boa no trabalho", afirmou Bruno Moreira.

Para encerrar, Márcio Blak resumiu a virada de chave que a inovação traz para a gestão diária: "A IA é uma grande orquestradora. Os dados estão no banco, mas se ficarem parados, não adiantam de nada. A tecnologia facilita essa leitura, trazendo o ecossistema de uma forma muito mais prática para o gestor que tem pouco tempo, mas exige resultados", concluiu.