
Preço do café em queda: o que muda para o supermercado?

Preço do café tem queda histórica; veja como isso impacta nos supermercados
No mês de julho de 2026, o preço do café apresentou um resultado histórico: o maior recuo percentual registrado no período de um ano desde a implementação do Plano Real, em 1994. Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo IBGE, houve uma queda de 2,45% no mês, chegando a uma retração acumulada de 17,2% nos últimos 12 meses.
Esse recuo impacta diretamente o setor, mas é necessário ter entendimento sobre como e quando os reflexos chegam às gôndolas.
Impactos do recuo no varejo
O café foi um dos principais motores para a redução geral do grupo Alimentação e Bebidas (-0,67%) em julho, resultando na queda de 1,14% na alimentação no domicílio - o maior recuo mensal do segmento nos últimos dois anos. Com os preços em acomodação, surge um estímulo para a recuperação de volumes. É o que explica Celírio Inácio, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), à ASSERJ.
"O café sempre foi um importante chamariz para o varejo por sua alta rotatividade e, sobretudo, por estar presente em 98% dos lares brasileiros. Quando há algum alívio de preços, o consumidor pode não apenas recuperar parte da frequência ou do volume de compra, mas também voltar a experimentar produtos de categorias variadas", diz.
No Rio de Janeiro, o movimento é ainda mais expressivo. Leandro Rosadas, especialista em gestão de supermercados, fala sobre esse cenário: "Nos 12 meses encerrados em julho, o café moído caiu 21,33% no Rio, enquanto a redução média no Brasil foi de 17,20%. [...] Isso mostra que a recuperação da oferta e a redução das tabelas já estão chegando ao varejo fluminense".
O que motiva a queda do preço do café?
Um dos principais motivos por trás desse recuo é a recuperação das lavouras cafeeiras após um período de alta acumulada. Segundo Leandro Rosadas, isso muda o equilíbrio da negociação: "Quando a indústria encontra mais oferta de grãos, o produtor perde parte da força que tinha no período de escassez e os preços começam a ceder", esclarece.
Além da safra, pesam a expectativa de maior oferta mundial, o comportamento do dólar e o próprio ciclo de reposição da indústria. "Em 2025, o volume de café consumido no Brasil caiu 2,31%, mesmo com o faturamento da indústria crescendo 25,6%. Ou seja, o consumidor continuou tomando café, mas reduziu quantidade, trocou de marca ou buscou embalagens mais acessíveis", completa o especialista.
Apesar da redução já estar acontecendo, o cenário exige cautela no planejamento de compras quando pensamos no futuro do café. "O mercado ainda inspira cautela, pois a redução já constatada no volume e na qualidade da safra do conilon e os possíveis efeitos do El Niño sobre a safra de 2027 trazem incertezas para a oferta, podendo interromper ou até reverter a atual trajetória de queda da matéria-prima", alerta Celírio. Rosadas complementa que eventos como o terremoto ocorrido na Colômbia (terceiro maior produtor de café) e as oscilações no mercado dos grãos também podem trazer impactos.
Percepção dos preços nas gôndolas
Mesmo com a queda acumulada, o valor do café ainda não retornou aos patamares anteriores ao ciclo de alta de 2024 e 2025 - mas há um motivo que explica esse fenômeno. "Até maio de 2025, o café moído havia subido 82,24% em 12 meses. Agora, acumula queda de 17,20% nos 12 meses encerrados em julho de 2026. Em um exemplo simples, se um produto passa de R$ 100 para R$ 182 (uma queda de 17,2%), leva o preço para aproximadamente R$ 151. Portanto, mesmo depois de uma queda importante, ele ainda estaria cerca de 51% acima do ponto de partida", exemplifica Leandro Rosadas.
Vale ressaltar que, desde a queda do preço da matéria-prima, ainda há um longo caminho entre o café e o pacote vendido na gôndola. "Esse repasse não ocorre de forma imediata nem necessariamente na mesma proporção, pois há estoques, contratos, diferentes momentos de aquisição da matéria-prima e outros componentes de custos ao longo da cadeia", ressalta Celírio Inácio.
O diretor-executivo da ABIC comenta quando a queda deve começar a ser melhor percebida nas gôndolas: "Mantidas as atuais condições, há espaço para a continuidade da acomodação dos preços e para que essa redução se torne mais perceptível ao consumidor à medida que estoques e ciclos de compra sejam renovados".
Apesar de todos os fatores envolvidos, aos poucos o público já começa a notar as mudanças nos valores do café. Brenda Larissa, diretora de marketing do Supermarket Torre e Cia, conta à ASSERJ sua percepção de vendas no dia a dia da rede: "Nós temos observado um aumento no volume comprado pelos clientes. Com mais promoções e um preço médio de venda menor em comparação ao ano passado, o consumidor percebe que o café está mais acessível e tende a levar uma quantidade maior".
Como os supermercadistas podem aproveitar o recuo do café?
De muitas formas! O cenário atual permite que o supermercado use a queda do preço do café como um aliado para o faturamento. "Não é necessário reduzir a margem de toda a categoria. O produto mais comparado pode gerar imagem de preço, enquanto cafés especiais, solúveis, grãos e cápsulas preservam uma margem maior", aconselha Rosadas.
Outra solução neste momento é trabalhar com ações especiais, ofertas competitivas, estratégias de experimentação e aproveitar para incentivar a venda com outros itens relacionados.
"O principal caminho é ampliar a visibilidade dos cafés promocionais por meio de pilhas, pontas de gôndola e uma comunicação clara de preços, reforçando para o cliente que o produto está mais barato. O cross-merchandising com itens do mesmo momento de consumo, como biscoitos, leite e filtros, também contribui para aumentar o valor da cesta. No entanto, essas exposições devem ser feitas com equilíbrio, respeitando o planograma que é estruturado de acordo com a jornada de compra do consumidor", aconselha Brenda Larissa.
Depois de tantos meses com os preços elevados, ter uma comunicação clara e constante é fundamental para que o cliente veja que há uma redução e seja incentivado a comprar. "Ao perceber que o preço caiu, o consumidor entende que pode aproveitar a oportunidade para levar mais unidades ou até experimentar uma marca de maior valor agregado, sem aumentar significativamente o orçamento destinado à categoria", afirma a diretora de marketing do Torre e Cia.
Para completar, Cerílio destaca a importância de oferecer opções para diferentes perfis de consumidores, desde aqueles que buscam menor custo aos que preferem versões gourmets. "Hoje, existe um consumidor cada vez mais atento à qualidade, procedência e segurança dos alimentos. Isso abre espaço para cafés certificados e estilos de maior valor agregado, como os gourmet e especiais. Portanto, a redução de preços pode gerar um efeito positivo em duas direções: mais volume nas categorias tradicionais e maior possibilidade de experimentação e migração para cafés de maior valor agregado", afirma.
"O ponto central é que a queda da matéria-prima não deve ser vista apenas como uma discussão de redução de preço. Ela pode ser uma oportunidade para revitalizar a categoria, recuperar volumes, ampliar a experimentação e valorizar qualidade, certificação e diferenciação no ponto de venda", conclui Celírio.



