
Alta no preço dos alimentos muda o consumo nos supermercados

Com o orçamento cada vez mais pressionado, o consumidor brasileiro passou a fazer escolhas mais estratégicas dentro do supermercado. Promoções, marcas próprias, planejamento de compras e percepção de valor passaram a influenciar diretamente a composição do carrinho.
Para o varejo supermercadista, compreender essas mudanças é fundamental para manter a fidelização, preservar o fluxo de compras e identificar novas oportunidades de consumo.
IPCA-15 confirma o cenário de mudanças
A prévia do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) reforça esse cenário. Segundo dados divulgados pelo IBGE, o indicador de junho ficou em 0,41%, abaixo dos registrados em maio (0,62%) e abril (0,89%). Apesar da desaceleração, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 4,8%, acima dos 4,64% do mês anterior.
Assim como em maio, o grupo Alimentação e Bebidas foi o principal responsável pela alta, avançando 0,74%. No recorte da Alimentação no Domicílio, a alta foi de 0,87% em junho.
Nos supermercados, alguns itens continuam pressionando o orçamento das famílias, entre eles a batata-inglesa (+29,42%), o tomate (+17,27%), o feijão-carioca (+14,29%) e a cebola (+9,54%). Em contrapartida, as quedas do café moído (-3,69%) e das frutas (-0,96%) ajudaram a conter uma inflação ainda maior.
Alta leva o consumidor a buscar promoções e mudar o carrinho
Na prática, a alta dos alimentos leva as famílias a adotarem diferentes estratégias para equilibrar as contas. O consumidor passa a acompanhar encartes, aplicativos e promoções, além de comparar preços entre diferentes lojas antes de decidir a compra.
Também cresce a substituição de produtos. Itens de maior valor agregado cedem espaço para marcas próprias, produtos similares e versões mais acessíveis. Ao mesmo tempo, categorias consideradas supérfluas perdem espaço no carrinho, enquanto os itens essenciais ganham prioridade.
As proteínas também refletem esse movimento. Carnes bovinas mais caras passam a ser substituídas por cortes mais econômicos, frango e ovos.
Retração no consumo aumenta na segunda quinzena do mês
Outra mudança importante ocorre na frequência de compra. Em vez do abastecimento mensal, muitas famílias optam por compras menores e mais frequentes, aproveitando ofertas ao longo do mês.
De acordo com João Márcio, gestor do Princesa Supermercados, a retração do consumo torna-se mais evidente na segunda quinzena.
"Nas últimas duas semanas do mês, especificamente nos dez dias finais, o orçamento familiar torna-se um fator determinante (...) Ao buscar proteínas, por exemplo, a preferência é redirecionada para cortes de frango ou ovos, que são mais baratos, porque acaba sentindo o impacto no bolso", explica.
Como o supermercado pode se adaptar
Para o varejo, entender essas mudanças é essencial para adequar sortimento, comunicação e estratégias promocionais. Afinal, a redução do ticket médio e a migração para produtos de menor margem impactam diretamente os resultados das empresas.
No Princesa, uma das estratégias adotadas é criar oportunidades de compra compatíveis com a realidade financeira do consumidor.
"Para minimizar o impacto, trabalhamos em estratégias que apresentam oportunidades de consumo que cabem no bolso (...) Fazemos combos promocionais para gerar economia, campanhas específicas veiculadas na TV, além do reforço de ofertas diárias no encarte", afirma João Márcio.
Além das promoções, o relacionamento com o cliente ganhou papel estratégico.
"Temos intensificado as estratégias de CRM no Princesa, indo além da questão promocional. (...) Criamos experiências diferenciadas que promovem o sentimento de pertencimento à comunidade da marca", destaca o gestor, citando iniciativas como festivais, workshops e ações de marketing de experiência.
Canais digitais fortalecem a estratégia e ampliam resultados
As promoções continuam sendo uma importante alavanca de vendas, principalmente quando associadas aos canais digitais.
"Estamos utilizando recursos de inteligência artificial para otimizar o alcance das promoções e torná-las mais assertivas (...) Buscamos aprimorar continuamente essa capacidade de direcionamento, garantindo que cada ação promocional chegue ao público mais adequado", explica.
Além dessas iniciativas, especialistas recomendam que os supermercadistas revisem constantemente o sortimento, fortaleçam o Gerenciamento por Categoria para reduzir rupturas e melhorar a rentabilidade, ampliem negociações com fornecedores e diversifiquem as fontes de receita por meio de canais digitais e retail media.
Em um cenário de orçamento apertado, o desafio do supermercadista é encontrar o equilíbrio entre competitividade e rentabilidade. Mais do que oferecer preços baixos, será fundamental entregar soluções que gerem valor ao consumidor e fortaleçam o relacionamento ao longo de todo o mês.
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