Sócio e vice-presidente da Binder, Lucas Daibert apresentou no Conecta Varejo 5 insights para o futuro, com base no conceito de Apocalotimismo

No Rio Innovation Week, Lucas Daibert apresenta o Apocalotimismo e cinco insights para interpretar o futuro

Painel do Conecta Varejo mostra como tecnologia, comportamento humano e inovação podem caminhar juntos em um mundo de rápidas transformações

06/08/2026

Conecta
Sócio e vice-presidente da Binder, Lucas Daibert apresentou no Conecta Varejo 5 insights para o futuro, com base no conceito de Apocalotimismo

Sócio e vice-presidente da Binder, Lucas Daibert apresentou no Conecta Varejo 5 insights para o futuro, com base no conceito de Apocalotimismo

A velocidade das transformações tecnológicas nunca foi tão intensa. Inteligência Artificial, automação, novos modelos de trabalho e mudanças no comportamento das pessoas desafiam empresas de todos os setores a rever estratégias praticamente em tempo real. Nesse cenário, em que o entusiasmo com a inovação convive com as incertezas sobre seus impactos, surge um novo conceito: o Apocalotimismo.

Essa reflexão norteou a palestra de Lucas Daibert, sócio e vice-presidente de Estratégia da Agência Binder, durante o Conecta Varejo, realizado no Rio Innovation Week. Ao longo da apresentação, o especialista compartilhou cinco insights para interpretar o futuro e mostrou que, mais do que acompanhar novas tecnologias, o grande desafio das empresas será desenvolver capacidade de adaptação, experimentação e leitura das transformações humanas. Logo no início, ele convidou o público a deixar de lado respostas prontas e embarcar em uma reflexão sobre os caminhos que a sociedade começa a trilhar.

Para Daibert, a sociedade vive um momento inédito, em que as mudanças tecnológicas acontecem mais rapidamente do que a capacidade social de absorvê-las. Em vez de enxergar esse cenário apenas sob uma ótica pessimista ou excessivamente otimista, ele propõe uma visão equilibrada, que reconhece os riscos e as oportunidades desse novo ciclo.

"O Apocalotimismo traduz a sensação de apocalipse ao percebermos uma tecnologia que pode representar uma ameaça à nossa existência ou à forma como organizamos a sociedade, misturada ao otimismo diante das possibilidades que ela também pode proporcionar, como abundância material, cura de doenças e contribuição para uma vida mais longa. Como qualquer outra tecnologia, a IA traz luz e sombras que precisam ser compreendidas para que possamos participar da construção do futuro que desejamos", explicou.

O executivo destacou que o futuro deixou de ser previsível: "O futuro não é mais como antigamente. Perdemos a possibilidade de criar nossos filhos imaginando qual profissão eles terão. Hoje, as mudanças tecnológicas acontecem mais rápido do que a capacidade social de absorvê-las. As bases democráticas se mostram mais frágeis e o mundo parece menos seguro do que imaginávamos".

Em seguida, provocou o público com uma pergunta que conduziu toda a apresentação: como transformar um mundo que parece estar se desmanchando na construção de algo novo? A reflexão foi inspirada no conceito desenvolvido pelo cineasta Daniel Roher, diretor do documentário 'The AI Documentary', recomendado pelo palestrante.

Experimentar será mais importante do que planejar

O primeiro insight apresentado por Daibert aponta para uma mudança profunda na forma como empresas constroem suas estratégias. Segundo ele, modelos baseados em planejamento rígido tendem a perder espaço para uma lógica de aprendizado contínuo, em que testar, errar rapidamente e ajustar passam a fazer parte da rotina das organizações.

"Hoje percebemos que a IA está mudando a forma como fazemos planejamento. Temos dificuldade de antever até os próximos seis meses e as empresas precisam mudar seu modo de planejar para trabalhar com aprendizado contínuo. No passado era muito caro testar um produto. Agora ficou barato. A lógica muda para prototipar executando e testando. O mundo digital e a própria IA permitem que façamos testes e escalemos aquilo que funciona. Você já explora enquanto testa."

Segundo o especialista, a Inteligência Artificial acelera esse processo ao permitir simulações, criação de protótipos e testes em velocidade inédita, reduzindo custos e tornando a inovação muito mais acessível.

"As organizações passam a contar com gêmeos digitais, simulando a realidade antes de executar. Na Fórmula 1, por exemplo, os carros são testados antes de ir para a pista. Hoje, criar códigos de programação já passou a ser uma função da IA. A programação deixou de ser escrita por quem entende da linguagem e passa a ser escrita por quem tem intenção."

Como exemplo dessa transformação, Daibert citou empresas que já utilizam Inteligência Artificial para desenvolver novas versões de seus próprios sistemas, acelerando ciclos de inovação e reduzindo o tempo entre a ideia e a execução.

O trabalho do futuro será reinventado

O segundo insight trouxe uma reflexão sobre a transformação do trabalho. Com a IA assumindo atividades operacionais e repetitivas, profissionais e gestores precisarão concentrar cada vez mais energia na estratégia, criatividade, relacionamento e tomada de decisão.

Daibert lembrou uma frase do futurista Ian Beacraft segundo a qual, atualmente, "90% do trabalho é execução e 10% é estratégia", mas afirmou que essa proporção tende a se inverter.

"Precisamos transformar esses 10% em 90%, repensando a maneira como trabalhamos. Vamos reinventar o nosso próprio trabalho. Se antes pensávamos em estruturas organizadas por departamentos, cada colaborador no seu quadrado, agora teremos profissionais com habilidades circulando por diferentes áreas. A realidade se torna muito mais fluida. As competências passam a se dividir entre aquilo que só o ser humano pode fazer, o que somente a IA executa e as novas habilidades que surgem da colaboração entre pessoas e Inteligência Artificial", destrinchou Daibert.

Na avaliação do executivo, essa mudança também altera o modelo das empresas: "Se antes era necessário um grande time para gerar um bom faturamento, hoje isso pode acontecer com equipes menores, mais enxutas e muito mais fluidas".

A tecnologia muda, mas quem muda são as pessoas

Ao falar sobre inovação, Daibert alertou que o maior erro das empresas é concentrar toda a atenção na tecnologia, sem compreender as mudanças de comportamento que ela provoca.

"Para quem está na linha de frente, conduzindo lojas e empresas, é importante perceber que toda transformação tecnológica deve ser analisada sob a perspectiva do que muda nos hábitos das pessoas que compram e utilizam nossos produtos e serviços. Em um mundo de mudanças aceleradas, é comum focarmos na tecnologia em si. Mas o que realmente importa é compreender como os hábitos e desejos das pessoas mudam. É aí que está a chave para o sucesso ou para o fracasso." 

Segundo ele, ferramentas evoluem rapidamente, mas são as mudanças de comportamento que determinam quais negócios prosperam e quais ficam para trás.

O risco do novo mundo

Ao abordar os impactos da Inteligência Artificial sobre a sociedade, Daibert chamou atenção para o volume de investimentos destinados à tecnologia, que já supera o Produto Interno Bruto (PIB) de diversos países. Para ele, a corrida pela IA vai muito além da criação de assistentes pessoais. Com base em reflexões de Tristan Harris, o executivo afirmou que o que está em disputa é a própria base da economia mundial: o trabalho humano.

"O PIB está ligado às pessoas produzindo. Quando empresas conseguem produzir cada vez mais com menos pessoas, muda também a distribuição de poder econômico e político. Essa transformação já começou", disse o executivo, que alertou na sequência: "A prova disso é a própria rede social. O incentivo não é melhorar a qualidade de vida, mas manter você conectado. Quanto mais tempo na tela, maior a receita".

Para ilustrar esse cenário, Daibert lembrou campanhas recentes da Polaroid e do Pinterest, que resgataram a valorização das experiências fora das telas e da chamada "vida analógica", como resposta à fadiga digital provocada pelo excesso de conectividade. Também citou um levantamento do pesquisador Scott Galloway segundo o qual 24% dos jovens apresentam dependência de redes sociais, enquanto cerca de 6% são dependentes de álcool e drogas, evidenciando a dimensão do problema.

Educação, novas inteligências e relações humanas

O terceiro insight abordou a necessidade de reinventar os modelos tradicionais de educação. Como exemplo, o especialista apresentou a Alpha School, instituição que utiliza Inteligência Artificial para reduzir o tempo dedicado ao conteúdo acadêmico e ampliar o espaço para atividades humanas, como esportes, criatividade, empreendedorismo, contato com a natureza e desenvolvimento socioemococional. O sócio da Binder destacou: "É uma educação muito mais baseada em experiência".

Para o especialista, há ambientes que representam uma forma de resistência à lógica dos algoritmos. "A escola, a universidade e até o Rio Innovation Week são uma resistência ao algoritmo. Quando você estuda, você cria conhecimento que desafia o algoritmo", afirmou.

Daibert também alertou para os riscos do uso indiscriminado da IA na aprendizagem. Como exemplo, contou o caso de um professor que inseriu um comando oculto em uma atividade. Alunos que recorreram automaticamente à Inteligência Artificial reproduziram esse comando nas respostas e acabaram reprovados.

"A IA é prática, mas pode destruir a reflexão e o desenvolvimento cognitivo. É como um Lego que já vem pronto. Você monta tudo, mas nunca sente a dor de pisar na pecinha", comparou.

Na sequência, o palestrante apresentou o quarto insight, defendendo que chegou a hora de ouvir outras inteligências, como a ambiental, ancestral, afetiva e artística, para ampliar a capacidade humana de interpretar um mundo cada vez mais complexo.

O quinto e último insight abordou os impactos da IA sobre as relações humanas. Ao citar o crescimento dos vínculos afetivos com bots e companhias virtuais, Daibert chamou atenção para os incentivos que sustentam essas plataformas.

"Ainda estamos tentando entender o que acontece com o ser humano quando ele se apaixona por um código", afirmou. "O problema é que a IA não foi programada para interagir de forma autêntica. Ela foi programada para manter a sua atenção. O objetivo não é entregar necessariamente a melhor informação, mas aquela que mantém você mais satisfeito e conectado. Isso aprofunda a construção de uma realidade cada vez mais particular", pontuou.

O futuro continuará sendo humano

O executivo concluiu lembrando que as chamadas soft skills passam a ocupar um papel central no futuro do trabalho e incentivou o público a ampliar seu repertório por meio de experiências presenciais: "O problema não é a IA. A gente já era cobrado para operar como uma máquina no trabalho. Agora a máquina sobrou e o que nos resta é não sermos máquinas medianas. Desenvolvam repertório. Vão a eventos, conversem, estudem filosofia, ciência, arte, literatura, cinema, conheçam pessoas. Façam tudo aquilo que sempre nos tornou humanos".

A principal mensagem da palestra foi clara: o futuro não será definido apenas pelos avanços tecnológicos, mas pela capacidade das pessoas de compreender as transformações em curso e decidir, conscientemente, como desejam utilizá-las. Desta forma, o Apocalotimismo não propõe escolher entre medo ou entusiasmo, mas aprender a navegar entre os dois para construir um futuro mais inteligente e mais humano.