El Niño deve ser o mais forte desde 1950, segundo previsões meteorológicas

Do frete à gôndola: como o supermercados do Rio devem se preparar para o Super El Niño

Projeções apontam um evento climático histórico. Segundo o economista Sergio Vale, o cenário exige que o varejo entenda o cronograma das safras e custos logísticos para garantir o abastecimento

21/07/2026

Economia
El Niño deve ser o mais forte desde 1950, segundo previsões meteorológicas

El Niño deve ser o mais forte desde 1950, segundo previsões meteorológicas

O clima deixou de ser um fator restrito ao agronegócio e assumiu um papel definitivo na gestão estratégica dos supermercados. Para o varejo abastecedor, a previsibilidade tornou-se sinônimo de proteção de margem. O alerta atual vem do Centro de Previsão Climática da NOAA (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA), que aponta 81% de chances de o El Niño alcançar intensidade "muito forte" entre outubro e dezembro de 2026, com impacto até o início do outono de 2027, configurando o maior evento do tipo desde 1950.

No Brasil, os mapas do Inmet já sinalizam o figurino clássico: chuvas muito acima da média na Região Sul e estiagem no Centro-Norte. Refletindo a pressão que virá do campo, o Boletim Focus do Banco Central já projeta a inflação geral na casa dos 5,33% para 2026. O desafio do supermercadista, no entanto, não é combater o clima, mas antecipar o cronograma de repasses.

A matemática do repasse e o fator "tempo"

Para traduzir a meteorologia em estratégia de negócios, Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados e pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, alerta que a atenção do varejo deve estar na "defasagem" do impacto. Segundo projeções do mercado, um Super El Niño pode pressionar a inflação dos alimentos.

"É factível — e, dependendo de como o evento se desenhar, pode ser até conservador no pico", avalia o economista. "Depois do super de 2015/16, a inflação da alimentação no domicílio atingiu 16,8% em agosto de 2016, oito meses após o pico do evento, e é essa defasagem que o varejo precisa ter no calendário. Minha conta para 2026/27, condicional a um evento forte de padrão leste, aponta excesso de 4,5 a 6 pontos no pico — alimentação no domicílio entre 9% e 11% no acumulado em doze meses lá por agosto a novembro de 2027, fechando o ano entre 7,5% e 9,5% —, o que em termos de IPCA cheio significa algo entre 0,6 e 0,9 ponto adicional, dado o peso de cerca de 16% do grupo", destaca o economista.

Sergio Vale ressalta que o varejo não deve se prender apenas à nomenclatura "super", mas acompanhar quatro variáveis decisivas: a região de aquecimento do Pacífico (a leste gera secas piores no Nordeste), a temperatura do Atlântico Tropical (que pode agravar a estiagem), o câmbio e o ritmo de colheita da soja. "O varejo não deve se planejar para um mapa, e sim monitorar os ponteiros que definem qual mapa virá", orienta.

O mapa das gôndolas: quem sobe e quem desce

O choque atinge as cadeias produtivas com dinâmicas próprias. O cenário base aponta o milho como a cadeia mais vulnerável. Perdas no Nordeste e no MATOPIBA (região de expansão agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) afetam diretamente a produção de ração, cujo repasse tende a chegar ao frango, ovos e carne suína no segundo semestre de 2027.

O arroz representa o risco inverso: a alta nos preços vem do excesso de água. Sergio Vale explica que o Rio Grande do Sul concentra 71% da oferta nacional e chuvas torrenciais derrubam a produtividade, recordando que, em 2016, a quebra de 14% na safra gaúcha gerou uma alta acumulada de 26% no preço do grão.

No caso do café, a atenção se volta para a floração (setembro a dezembro), janela em que o calor recorde é letal. A boa notícia estrutural vem do feijão: a produção nordestina migrou geograficamente, reduzindo a dependência do semiárido, o que mitiga o risco de altas dramáticas como os 135% vistos há uma década.

Rio de Janeiro e o "pedágio invisível"

Para o supermercado fluminense, a conta chega de duas formas. Sendo um importador de grãos e proteínas, o estado paga o que Sergio Vale classifica como "pedágio invisível" dos eventos climáticos: o frete. "A seca amazônica em 2023/24 baixou os rios, tirou de operação as barcaças do arco norte e devolveu a carga ao asfalto, encarecendo todos os corredores do centro-sul entre 10% e 22% ao mesmo tempo. Para um estado na ponta receptora, esse sobrecusto chega ao Centro de Distribuição antes de chegar à gôndola", explica Vale.

No hortifruti (FLV), a vulnerabilidade atinge a Região Serrana. Chuvas intensas características do El Niño encharcam o solo e podem cortar a oferta local repentinamente. A solução, segundo Vale, não é estoque, que acaba sendo inviável para perecíveis, mas ter origem diversificada: "Quem tiver fornecimento contratado também em São Paulo, Sul de Minas e Espírito Santo atravessa os picos serranos com prateleira cheia e ganha o cliente do concorrente que não tiver".

Gestão de crise na prática

Quando a inflação bate à porta, o consumidor instintivamente adota o 'trade down', trocando a carne de primeira por frango, ovos e vendo ofertas em diferentes supermercados. "O consumidor migra do item para a estação: aceita substituir a hortaliça em pico de preço pela que está em oferta, e o varejo que facilita essa substituição protege margem e fluxo", pontua o economista da MB Associados.

Na ponta da operação, essas estratégias já definem o planejamento de quem sobreviveu aos últimos ciclos. Adenilson Vidal, Diretor Comercial da Rede Unidos, lembra que o El Niño de 2023/24 trouxe oscilações abruptas nas commodities e na logística. Para mitigar, a rede precisou de respostas estruturais urgentes.

"Emergencialmente fizemos um planejamento estratégico integrado, que incluiu o uso de previsões meteorológicas para antecipar cenários, reforço no relacionamento com fornecedores e maior eficiência na gestão de inventário. Reduzimos o 'lead time' de reposição e tentamos manter a regularidade no abastecimento", revela Vidal.

Previsibilidade para garantir o abastecimento

Com a clareza de que um novo e mais forte ciclo se aproxima, a ordem é previsibilidade. Assim, a janela atual de doze meses deve ser usada para negociar contratos, travar preços e garantir abastecimento. "Nossos compradores, em parceria com os fornecedores, irão ampliar a análise de dados de mercado, que nos permitem antecipar tendências de consumo e ajustar estoques em sincronia com as vendas", projeta o diretor da Rede Unidos.

"O compromisso é claro: mesmo diante de fenômenos climáticos extremos, o consumidor continuará encontrando qualidade, preço justo e segurança em nossas lojas", finaliza Vidal.

Neste cenário, estar preparado para os impactos dos eventos climáticos torna-se primordial para o supermercadista. Afinal, como resume de forma cirúrgica Sergio Vale: "Choque anunciado que ainda assim surpreende é falha de gestão, não de meteorologia".