Painel no Rio Innovation Week traz debates sobre a NR-01 e o papel dos líderes no cuidado com saúde mental nas empresas

Cuidado com a saúde mental nas empresas: especialistas debatem NR-01 no Rio Innovation Week

Conecta Varejo trouxe referências no setor para explicar como a norma impacta o setor varejista na prática

06/08/2026

Conecta
Painel no Rio Innovation Week traz debates sobre a NR-01 e o papel dos líderes no cuidado com saúde mental nas empresas

Painel no Rio Innovation Week traz debates sobre a NR-01 e o papel dos líderes no cuidado com saúde mental nas empresas

O Conecta Varejo é palco dos temas mais atuais do setor varejista e, por isso, a NR-01 não poderia ficar de fora. “O cuidado cada vez maior com a saúde mental deve ser tratado nas empresas” foi mais um painel apresentado no Rio Innovation Week nesta quinta-feira (06).

O debate foi conduzido por Aline Graffiette (CEO da Mental One Psicologia), Bárbara Ferrari (Advogada da Ferrari & Rodrigues Advogados) e Claudia Marcia de Carvalho Soares (Presidente da Associação Brasileira de Magistrados do Trabalho).

As três abordaram a NR-01, que estabelece as disposições gerais de todas as Normas Regulamentadoras de Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. O grupo trouxe números e reflexões sobre por que o cuidado com a saúde mental deve fazer parte da estratégia das empresas. Confira tudo que rolou!

NR-01: suas implicações psicossociais e trabalhistas 

Bárbara Ferrari abriu o painel explicando que a NR-01 é uma norma base do ministério do trabalho e emprego que teve início há alguns anos, mas passou por uma grande mudança quando foi incluído um item abordando os riscos psicossociais. A partir de então, ganhou repercussão na mídia e entre os empresários. 

Ela explicou que o objetivo do debate é “esclarecer a questão da saúde mental” de forma prática. “O número de afastamento do ano passado foi de quase 4 milhões, com um número de dias perdidos muito grande”, disse.  

O desafio em dados

Aline Graffiette começou sua participação no Conecta Varejo falando sobre dados importantes do setor. “Falar sobre saúde mental é sempre subjetivo porque você não tem um marcador para nenhum transtorno mental”, disse. Ela explicou que os números mostram que está ficando muito dinheiro na mesa, tanto para o empregador quanto para o empregado.

Atualmente, são 378 mil reais de custo anual estimado de turnover em uma loja de porte médio. “Temos formas de mitigar esse risco enorme e também uma taxa média pro varejo”, disse a especialista. 

Ela analisa que o varejo é “a ponta de escoamento de tudo que é produzido no Brasil". Os números revelam que o turnover do varejo chega a 70% a 80%. ”São demitidos e contratados 7 mil pessoas todos os meses. É um número maior que muitas cidades brasileiras”, reforçou Aline. Segundo ela, o desafio é entender por que isso está acontecendo. 

“A NR-01 vem para trazer o entendimento sobre governança e cultura de empresa. Quando o empregado não permanece, ele não conhece a cultura da empresa e se torna alguém de passagem. Tudo que é de passagem, não terá uma história”. 

Fatores de risco no varejo

O primeiro fator de risco apontado por Aline são as metas de venda e a pressão por resultado constante. Ela deu como exemplo alguns setores, como o imobiliário, onde é muito difícil você obrigar uma pessoa a comprar algo. Por isso, objetivos muito acima do esperado acabam criando um ambiente de tensão. “A pressão pela meta de vendas tem que ser equalizada com a condição e o poder de venda da população”, afirmou. 

Outro ponto de atenção é o atendimento ao público com exposição a clientes agressivos. Ela dá o exemplo de suas clínicas, que acabam sendo espaços mais propensos a lidar com pessoas em estados mais sensíveis. Por isso, é necessário ter um treinamento para as equipes de atendimento. “É preciso colocar políticas onde a pessoa possa ter áreas de descompressão e locais para expor suas angústias 

Além disso, as longas jornadas em pé e poucas pausas são outras problemáticas no setor.  “É uma questão de ergonomia. [... A questão não é só sobre ser feliz no trabalho, é sobre ter qualidade para produzir mais e melhor. É tudo uma roda que gira”, explicou. 

Após indicar os problemas encontrados no varejo, Aline apontou que é preciso trabalhar para evitá-los. Segundo ela, existem muitas ideias e ações que, na prática, não resolvem o problema de verdade. “Não adianta encher protocolos e questionários disso e daquilo. O problema é um pouco mais profundo porque fala sobre a voz de todos. Uma companhia saudável produz mais”, explicou. 

Impacto legal da NR-01

Para contribuir com o debate, Cláudia Marcia trouxe o lado jurídico da questão da saúde mental no ambiente de trabalho. 

“O nosso dia tem 24 horas. O direito se dividiu no trabalho: 8 horas para trabalhar, 8 horas para dormir e 8 horas para o lazer. Mas estamos no Rio de Janeiro, então para chegar no trabalho levamos 1h30 para ir e voltar. Esse horário sai das 8 horas de trabalho? Não, sai do lazer e do sono porque precisamos abrir mão de alguma coisa”, detalhou a especialista. 

Ela explicou que, por concentrar ⅓ da vida, o trabalho não pode ser um local de adoecimento e agravamento de problemas de saúde. Cláudia reforçou que, após a pandemia, houve um aumento nos casos de afastamento por saúde mental. Se antes ocupava a 9ª posição dos motivos por afastamento em 2018, saltou para 2º em 2025. 

A NR-01 é uma norma que existe desde a década de 70, mas foi atualizada em 2024. “O Ministério do Trabalho colocou que, agora, os empregadores devem mapear os riscos psicossociais. Porém, a aplicação da multa foi suspensa no STF porque o texto ainda está subjetivo e precisa ser alinhado”, explicou. 

O papel do líder

Segundo Cláudia, a NR-01 veio para deixar claro que o dono da empresa precisa saber tudo que acontece nela. “Não pode falar que não sabia. Não cola na Justiça do Trabalho, que vai cumprir a norma regulamentadora”, disse. Segundo ela, o empregador pode até não ser multado em um primeiro momento, mas o caso muda se chegar na Justiça do Trabalho. 

“Nada é perfeito e o ambiente de trabalho também não será. Mas ele precisa ser o melhor possível”, explicou. Cláudia reforçou que, quando o empregado consegue provar que o ambiente de trabalho não era adequado, a empresa deve ser condenada. 

Ela esclareceu que, com a NR-01, haverá um mapeamento mais rígido e preciso. Porém, o trabalho do líder não para por aí. “Não é só mapear, mas executar o mapeamento. É fazer encontros, ter locais de descompressão”, indicou. 

Cláudia destacou ainda que a NR-01 serve para deixar o ambiente de trabalho mais adequado, sendo uma medida benéfica tanto para o empregador quanto para o empregado. 

“O dono do negócio tem que se preocupar em acompanhar isso porque, a partir de agora, a cobrança e a indenização serão um pouquinho maiores do que já é. A NR-01 é uma oportunidade para o empregador, inclusive, ganhar. Se o empregado está satisfeito e pleno, ele será muito mais produtivo e não vai querer pedir demissão. Assim, evitamos a rotatividade, que é algo ruim para o empregador, pois perde dinheiro, e para o empregado, que fica insatisfeito”, afirmou.