compras supermercado

Por que os brasileiros ainda sentem dificuldade nas compras mesmo com melhora da economia?

12/05/2026

Economia
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Apesar da queda histórica do desemprego e do aumento da renda média no Brasil nos últimos anos, a sensação de bem-estar da população não acompanha os indicadores positivos do mercado de trabalho. A avaliação é do pesquisador do FGV IBRE e doutor em economia pela FGV EPGE, Luiz Guilherme Schymura.

Segundo o economista, um dos principais motivos para esse descompasso está no avanço expressivo da inflação dos alimentos, que tem afetado diretamente o orçamento das famílias brasileiras e mudado a percepção da população sobre seu poder de compra nas compras realizadas nos supermercados.

De acordo com Schymura, embora a taxa de desemprego tenha atingido 5,6% no terceiro trimestre de 2025, o menor nível da série histórica, o aumento dos preços dos alimentos acima do IPCA reduziu o impacto positivo da melhora do mercado de trabalho na vida cotidiana dos consumidores. “A alimentação passou a ocupar uma parcela maior do orçamento das famílias, especialmente entre as de baixa renda. Isso faz com que, mesmo com emprego e renda melhores, a percepção seja de perda de poder de compra”, afirma Luiz Guilherme Schymura.

O economista ressalta que os alimentos consumidos dentro do domicílio acumulam inflação quase 20 pontos percentuais acima do IPCA desde 2019. Entre as famílias que recebem entre um e um salário mínimo e meio, os gastos com alimentação passaram de 18,9% para 22,2% da renda mensal. Esse cenário é percebido diretamente nas compras realizadas no varejo supermercadista, já que itens básicos passaram a comprometer uma fatia maior do orçamento familiar. Segundo a pesquisa do FGV IBRE, 74% dos entrevistados apontaram a alimentação como a despesa que mais pesa nas contas do mês. Entre quem recebe até dois salários mínimos, esse percentual sobe para 79,5%.

Além da inflação dos alimentos, Schymura destaca que boa parte das vagas criadas nos últimos anos está concentrada em ocupações de menor remuneração, como comércio, serviços de limpeza e transporte por aplicativos. “Embora o desemprego esteja baixo, muitos dos empregos gerados possuem salários inferiores à média nacional. Isso ajuda a explicar por que os números agregados da economia não se traduzem automaticamente em sensação de melhora para a população”, ressalta Luiz Guilherme Schymura.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é que parte da melhora dos indicadores do mercado de trabalho decorre de mudanças estruturais na população, como maior escolaridade e envelhecimento da força de trabalho, e não necessariamente de um ganho efetivo de produtividade ou renda.

Na prática, o consumidor sente os impactos diretamente no momento das compras. O levantamento aponta que, quando a renda é ajustada pela inflação dos alimentos e pelas mudanças demográficas, há percepção de perda de renda real desde 2019. “Quando a pessoa percebe que não consegue comprar a mesma quantidade de produtos com o mesmo dinheiro, isso afeta diretamente a sensação de bem-estar econômico”, conclui Luiz Guilherme Schymura.