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Escola ASSERJ realiza workshop sobre reforma tributária e impactos na margem do varejo supermercadista

08/04/2026

Por dentro da ASSERJ
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A Escola ASSERJ realizou nesta quarta-feira, dia 8 de abril, o Workshop Reforma Tributária e seus Impactos no Comércio Varejista de Supermercado. O encontro foi ministrado por Renata Peres, mestre em Ciências Contábeis e especialista em consultoria contábil e fiscal, que apresentou um panorama abrangente das mudanças e fez um alerta direto ao setor: a transformação já começou e exige adaptação imediata.

Logo na abertura, a especialista contextualizou o momento atual como uma fase decisiva de preparação. Em abril de 2026, o país já vive a fase de testes operacionais do novo modelo, com a CBS e o IBS em vigor com alíquotas simbólicas de 0,9% e 0,1%, respectivamente, utilizadas para adaptação de sistemas e processos.

“Estamos em uma fase de testes operacionais, com alíquotas simbólicas, mas isso não significa que seja um período de espera. É agora que as empresas precisam ajustar sistemas, cadastros e estratégias”, afirmou.

Segundo Renata, o curto prazo será determinante para a competitividade futura das empresas. Os próximos oito meses são considerados uma janela crítica para ajustes estruturais, especialmente em precificação, cadastro de produtos e contratos. “Quem deixar para depois vai sentir o impacto direto na margem já em 2027”, alertou.

A especialista também chamou atenção para um erro comum de percepção no mercado: acreditar que os efeitos mais relevantes ocorrerão apenas no fim da transição. “O maior risco não está em 2033. O risco está em janeiro de 2027, quando a CBS entra em vigor de forma efetiva e o PIS e a Cofins são extintos, enquanto o ICMS começa sua extinção gradual a partir de 2029. Quem não estiver preparado, perderá margem”, enfatizou.

Uma mudança estrutural e não apenas tributária

Ao longo do workshop, ficou evidente que a reforma vai muito além da simplificação de tributos. Trata-se de uma mudança estrutural na lógica de funcionamento do sistema fiscal brasileiro. “Essa é a maior transformação do sistema fiscal brasileiro desde a década de 1960. Não estamos falando só de troca de tributos, mas de uma mudança completa na lógica de cálculo, cobrança e crédito ao longo da cadeia”, explicou Renata.

O novo modelo substitui cinco tributos — PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS — por um sistema de IVA Dual, formado pela CBS (federal) e pelo IBS (estadual e municipal), além do Imposto Seletivo (IS), popularmente apelidado de Imposto do Pecado. A proposta segue padrões internacionais e elimina um dos principais problemas do sistema atual: a cumulatividade.

“Acabou o imposto sobre imposto. Com a não cumulatividade plena, 100% do imposto pago nas compras pode gerar crédito, desde que a despesa esteja vinculada à atividade da empresa”, destacou.

Essa mudança altera diretamente o papel do varejo supermercadista. “O supermercado deixa de ser um simples repassador de custo e passa a ser um gestor ativo de crédito e margem”, afirmou.

Nova estrutura de tributação impacta diretamente o mix

Um dos pontos mais relevantes apresentados foi a criação de diferentes faixas de tributação, que impactam diretamente o sortimento das lojas:

  • Cesta básica nacional: alíquota 0% (itens como arroz, feijão, leite, pão e carnes)
  • Alíquota reduzida: cerca de 10,6% (óleo de soja, massas alimentícias, amido de milho e produtos)
  • Alíquota padrão: aproximadamente 26,5%, incidindo sobre categorias como higiene, limpeza e bazar
  • Imposto seletivo: acima da alíquota padrão, aplicado a bebidas alcoólicas, açucaradas e cigarros

Esse novo desenho tributário deve provocar mudanças importantes no comportamento de consumo. “O consumidor não vai parar de consumir, mas pode migrar de categoria. Antecipar esse movimento será essencial”, explicou.

Produtos da cesta básica, por exemplo, representam entre 30% e 40% do faturamento de um supermercado típico, e passam a ter papel ainda mais estratégico. “Com imposto zero na saída e crédito na entrada, o custo cai. Isso pode ser usado para gerar tráfego e aumentar o volume de vendas”, destacou.

Precificação mais transparente e mais estratégica

Outro impacto direto está na formação de preços. O novo modelo adota o sistema de imposto “por fora”, em que a carga tributária passa a ser destacada na nota fiscal.

Isso aumenta a transparência, mas também exige maior controle operacional. “Agora a margem é aplicada sobre o valor líquido. O imposto deixa de interferir no cálculo e passa a ser apenas um repasse financeiro”, explicou.

Além disso, erros de cadastro fiscal ou classificação de produtos podem gerar perdas imediatas. “Se o cadastro estiver errado, o preço estará errado. E isso impacta diretamente o resultado”, alertou.

Eficiência operacional substitui guerra fiscal

Outro avanço relevante é o fim da guerra fiscal entre estados, substituída por um modelo com legislação mais uniforme. Atualmente, o país convive com 27 legislações estaduais de ICMS e milhares de regras municipais, o que gera complexidade e insegurança jurídica.

Com a reforma, a tendência é de simplificação e maior previsibilidade. “O Brasil está seguindo o padrão mundial. Saímos de um sistema caótico para um modelo mais transparente”, afirmou.

Nesse novo cenário, a competitividade deixa de estar associada a benefícios fiscais e passa a depender da eficiência operacional. “A reforma não seleciona setores, ela seleciona comportamentos. Empresas mais organizadas e tecnológicas terão vantagem”, disse.

Caixa pressionado exige nova disciplina financeira

A introdução do “split payment” (mecanismo em que o valor do imposto já é separado automaticamente no momento da transação), também representa uma mudança significativa. Nesse modelo, o imposto é automaticamente separado no momento da transação e direcionado ao governo. “O imposto deixa de passar pelo caixa da empresa. Isso reduz o capital de giro disponível e exige uma gestão financeira muito mais rigorosa”, explicou.

Esse cenário é especialmente crítico para empresas com baixa liquidez. Entre os sinais de alerta apresentados estão negócios com menos de 15 dias de faturamento em caixa ou margens líquidas inferiores a 2%. “O lucro reflete o resultado, mas é o caixa que sustenta a operação. E, com a reforma, o caixa passa a ser ainda mais crítico”, resumiu.

Reforma como filtro competitivo

Ao final do encontro, a especialista reforçou que a reforma deve funcionar como um divisor de águas no setor. “Ela não escolhe setores, escolhe comportamentos. Quem é informal, desorganizado ou passivo tende a perder espaço. Já empresas profissionais, tecnológicas e estratégicas terão vantagem competitiva”, afirmou.

A mensagem final foi direta: “Enquanto muitos ainda estão tentando entender a reforma, outros já estarão capturando ganhos de margem. Quem entender a nova regra do jogo primeiro, captura melhores resultados”.

Diante desse cenário, a preparação é uma necessidade operacional imediata. Como destacou Renata Peres, “2026 não é apenas um ano de teste. É o ano de ajustar tudo antes da virada”.

Além disso, Adriana Alves, analista de educação corporativa da ASSERJ, reforçou a importância do workshop. “Iniciativas como essa reforçam o papel da Escola ASSERJ na qualificação contínua dos profissionais do setor”, destacou.

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