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Demanda por produtos multiculturais cresce e redefine estratégias no varejo supermercadista

05/02/2026

Atualidades
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O varejo supermercadista está diante de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor. O tradicional conceito de “corredor étnico” já não dá conta da diversidade de hábitos alimentares que cresce em todo o mundo — movimento que tende a se intensificar em 2026 e serve de sinal claro para operadores, fornecedores e marcas.

Com uma população cada vez mais diversa e gerações mais jovens em busca de sabores globais, especialistas do setor apontam que a demanda por produtos internacionais e por sortimentos multiculturais mais bem integrados ao ponto de venda está em plena expansão. O avanço não se limita a nichos: trata-se de um vetor competitivo relevante dentro do varejo supermercadista.

Multicultural é o novo “especializado”

Para analistas do setor, os alimentos multiculturais são uma extensão natural do crescimento do varejo especializado, que vem apresentando desempenho superior ao de redes regionais e generalistas.

“Os supermercados multiculturais estão abrindo caminho porque oferecem as mesmas coisas que são valorizadas pelos consumidores de produtos naturais e orgânicos… e, quando se observa a sobreposição entre esses consumidores e os públicos diversos, o que eles mais valorizam é exatamente a mesma coisa”, afirma Diana Leza Sheehan, fundadora e CEO da PDG Insights.

Segundo ela, esse ponto de convergência envolve fatores como transparência nos ingredientes, origem dos produtos, compra local e oferta de alimentos frescos — atributos cada vez mais relevantes para o varejo supermercadista que busca diferenciação além do preço.

Sheehan cita os consumidores latinos como exemplo claro dessa tendência. Esse grupo representa cerca de 20% da população dos Estados Unidos e está entre os que mais crescem no país. Além disso, apresenta forte presença em redes especializadas como Whole Foods Market, Fresh Thyme, Natural Grocers e Sprouts Farmers Market.

Intencionalidade no consumo impulsiona sabores globais

Dados da empresa de inteligência de mercado SPINS reforçam essa mudança. Durante a apresentação do Market Report & Trend Predictions 2026, a companhia destacou que os consumidores estão cada vez mais intencionais em suas escolhas alimentares — e isso inclui a busca ativa por sabores internacionais.

“Essa intencionalidade está levando os consumidores a expandirem o paladar em busca de sabores globais que tragam variedade, autenticidade e senso de descoberta para as refeições do dia a dia”, afirma Jessica Maniscalco, diretora de parcerias com o varejo da SPINS.

Segundo ela, assim como ocorre no varejo especializado, esses consumidores estão dispostos a pagar mais por produtos que entreguem autenticidade, origem clara e qualidade percebida. “Os consumidores de hoje não estão mais apenas experimentando sabores internacionais. Eles estão ativamente buscando esses produtos”, destaca Maniscalco.

O papel estratégico da marca própria

Para o varejo supermercadista tradicional, ampliar o sortimento multicultural não é novidade. No entanto, especialistas apontam que, em 2026, a marca própria tende a assumir papel ainda mais estratégico nesse movimento. Itens internacionais de marca própria permitem ampliar o sortimento, testar categorias, ajustar preços e reduzir dependência de grandes marcas nacionais. Além disso, ajudam a desconstruir o modelo engessado do “corredor étnico”.

“Os produtos multiculturais de marca própria permitem oferecer uma seleção de sabores muito mais diversa e ajudam o varejo a se afastar dos corredores genéricos de produtos étnicos”, explica Sheehan.

Sortimento local como diferencial competitivo

Mais do que ampliar o portfólio, especialistas defendem uma abordagem baseada em leitura de comunidade e sortimento localizado. “O varejo fala há anos sobre personalização e sortimento local. Mas, quando se trata de otimizar a gôndola, reconhecer onde e quando determinados produtos devem estar presentes para atender comunidades diversas se torna essencial”, afirma Maniscalco.

Nesse contexto, redes dificilmente se tornarão destinos primários para compras multiculturais profundas. Ainda assim, podem — e precisam — demonstrar sensibilidade cultural. “Esses varejistas podem mostrar aos consumidores que entendem as nuances culturais e que estão criando soluções reais, não versões genéricas”, conclui Sheehan.

Oportunidade estratégica para indústria e varejo

Para o ecossistema do varejo supermercadista, o avanço da alimentação multicultural representa mais do que tendência: é uma oportunidade concreta de inovação em sortimento, margem, marca própria e relacionamento com comunidades locais. Indústria, distribuidores e varejistas que souberem traduzir diversidade cultural em soluções comerciais claras tendem a sair na frente em um cenário cada vez mais competitivo e fragmentado.