prevenção e perdas

Entre ruptura e estoque: onde o varejo supermercadista está perdendo dinheiro

17/03/2026

Por dentro da ASSERJ
prevenção e perdas

A prevenção de perdas deixou de ser um tema operacional para ocupar posição estratégica dentro das empresas do varejo supermercadista. Essa foi a principal mensagem da palestra realizada no Palco Varejo & Negócios da SRE Super Rio Expofood 2026, no Riocentro, que reuniu Carlos Eduardo Santos, presidente da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (Abrappe), e William Lodrão, gerente de prevenção e perdas do Supermercados Princesa.

Durante o encontro, especialistas apresentaram dados, conceitos e práticas que mostram como a gestão eficiente de perdas pode impactar diretamente a rentabilidade, a competitividade e até a fidelização de clientes no setor.

“Básico bem feito” ainda é o maior desafio

Em sua apresentação, Carlos Eduardo Santos destacou que, antes de avançar para estratégias mais sofisticadas, o setor precisa dominar o que chamou de “básico bem feito”. O conceito está ligado ao controle rigoroso de indicadores essenciais da operação.

Entre os principais pontos, ele destacou quatro indicadores prioritários: perdas desconhecidas (como furtos), perdas conhecidas (avarias e vencimentos), acuracidade de estoque e ruptura.

“As perdas conhecidas representam entre 60% e 70% do total no varejo supermercadista. Já a ruptura faz com que, a cada 100 produtos procurados, 19 não sejam encontrados. Isso significa perda direta de venda”, explicou.

Segundo o executivo, o impacto é significativo: o setor pode perder entre 3% e 5% do faturamento apenas por ruptura — índice, em muitos casos, superior ao das perdas tradicionais.

Ele também ressaltou a importância da acuracidade de estoque como um dos pilares da eficiência operacional. “Um estoque confiável melhora o planejamento de compras, reduz excessos, evita rupturas e diminui perdas financeiras”, afirmou.

Perdas podem superar a margem do negócio

Outro dado que chamou atenção foi o comparativo entre perdas e margem do setor. De acordo com Carlos, em alguns formatos de loja, as perdas podem superar a margem média do varejo supermercadista.

“Em lojas de vizinhança, por exemplo, a perda chega a 3,30%, enquanto a margem média gira entre 2% e 2,5%. Isso mostra o tamanho do desafio e o quanto há de oportunidade para melhorar resultados”, destacou.

Ele reforçou que investir em prevenção de perdas não apenas reduz prejuízos, mas também abre espaço para estratégias comerciais mais agressivas. “Quem perde menos pode reduzir preços, fazer mais promoções e ganhar competitividade”, pontuou.

Impacto vai além do financeiro

Carlos também chamou atenção para o efeito em cadeia das perdas dentro da operação. Segundo ele, problemas como furtos e falhas de controle geram distorções de estoque, que levam à ruptura, perda de vendas e, em casos mais graves, à perda de clientes.

“Perder um cliente fiel pode representar até R$ 100 mil ao longo da vida. A prevenção de perdas impacta diretamente a experiência do consumidor”, afirmou.

Cultura organizacional é decisiva

Complementando a visão estratégica, William Lodrão destacou que o sucesso da prevenção de perdas depende da cultura organizacional e da integração entre áreas.

“Não adianta ter um departamento eficiente se o restante da empresa não estiver alinhado. A prevenção de perdas precisa ser responsabilidade de todos”, afirmou.

Ele defendeu que todos os colaboradores — do operador de caixa ao gestor — devem atuar como agentes de prevenção. “Quando toda a equipe entende seu papel, o resultado aparece”, disse.

Adaptação à realidade de cada empresa

Lodrão também ressaltou que não existe uma fórmula única para o setor. Segundo ele, práticas de sucesso precisam ser adaptadas à realidade de cada operação.

“O que funciona em uma multinacional pode não funcionar em uma empresa regional. É preciso ajustar processos ao tamanho, à estrutura e ao contexto do negócio”, explicou.

Apesar dos desafios, ele vê o Rio de Janeiro com alto potencial, especialmente pela capacidade dos profissionais de se adaptarem a cenários adversos. “Com menos recursos, muitas vezes conseguimos fazer mais. Isso mostra a força do setor”, afirmou.

Treinamento e controle são pilares

Entre as práticas recomendadas, Lodrão destacou a realização de inventários rotativos, o investimento contínuo em treinamento e a criação de centrais de monitoramento.

“Sem treinamento, não existe prevenção. E sem controle, você não sabe onde está o problema”, afirmou.

Ele também alertou para áreas críticas, como frente de caixa e setores perecíveis, que exigem atenção redobrada. “A perda real precisa ser conhecida. Não adianta maquiar números”, disse.

Prevenção como alavanca de resultados

A palestra deixou claro que a prevenção de perdas é uma das principais alavancas de resultado no varejo supermercadista. Mais do que reduzir prejuízos, ela contribui para aumentar margem, melhorar a experiência do cliente e fortalecer a competitividade.

“O grande desafio é conscientizar as empresas de que prevenção de perdas não é custo, é investimento estratégico”, concluiu Carlos Eduardo Santos.