Rafael Ribeiro

Delivery próprio ou marketplaces? Especialista aponta caminhos e alerta para dependência de plataformas

17/03/2026

Por dentro da ASSERJ
Rafael Ribeiro

A escolha entre operar um delivery próprio ou terceirizar por meio de marketplaces foi tema de debate no Palco Varejo & Negócios da SRE Super Rio Expofood 2026, realizada no Riocentro. A palestra foi conduzida por Rafael Ribeiro, fundador e CEO da Jotajá, que apresentou estratégias práticas para aumentar vendas e reduzir a dependência de plataformas intermediárias.

Durante a apresentação, o especialista chamou atenção para um dos principais riscos do modelo baseado exclusivamente em marketplaces: a chamada “guerra de cupons”. Segundo ele, embora os descontos agressivos possam impulsionar vendas no curto prazo, o efeito no longo prazo tende a ser negativo.

“Essa chuva de cupons acostuma o cliente a comprar só com desconto. É o ‘cliente cuponzeiro’, que não tem fidelidade com a marca”, afirmou. Para Ribeiro, o cenário pode levar à concentração de mercado, reduzindo a competitividade. “O perigo é, no fim dessa guerra, sobrar um ou dois players e voltarmos a um ambiente monopolizado”, alertou.

Como contraponto, ele citou o modelo dos Estados Unidos, onde há maior equilíbrio entre plataformas. “Lá existem vários marketplaces fortes, o que torna a disputa mais saudável para todos — principalmente para quem vende”, disse.

Estratégia multicanal é o caminho

Ao longo da palestra, Ribeiro destacou que a decisão entre delivery próprio ou terceirizado não deve ser excludente, mas estratégica. Ele apresentou 12 canais de tração que podem ser utilizados por negócios de alimentação e varejo supermercadista para ampliar vendas e fortalecer a marca.

Entre eles, o especialista destacou o uso de canais orgânicos como redes sociais e, principalmente, o Google. “Pouca gente explora bem o Google Meu Negócio, que é uma ferramenta gratuita e com enorme potencial. O Google tem dados e audiência suficientes para entrar forte no segmento de food”, afirmou.

Outro ponto enfatizado foi a importância da mídia offline. “Panfleto ainda funciona, desde que seja feito com estratégia. Quando você acerta o público, o retorno vem”, explicou.

Base de clientes é o maior ativo

Ribeiro também reforçou que o maior ativo de um negócio é sua própria base de clientes. Segundo ele, investir em CRM (gestão de relacionamento) é essencial para aumentar a recorrência de pedidos.

“O cliente mais fácil de vender é aquele que já comprou de você. Hoje existem ferramentas que permitem entender o comportamento de compra e ativar esse cliente de forma automatizada”, destacou.

Ele citou exemplos de ações personalizadas, como envio de ofertas direcionadas por WhatsApp e campanhas segmentadas nas redes sociais, aumentando a taxa de conversão e o ticket médio.

Tráfego pago exige operação estruturada

O uso de tráfego pago também foi abordado como ferramenta relevante, mas com um alerta: só funciona bem quando a operação está organizada. “Se a operação é ruim, investir em tráfego pago é como jogar água em balde furado”, afirmou.

Além disso, o especialista recomendou atenção na escolha de profissionais para gestão dessas campanhas. “Fazer de qualquer jeito não traz resultado. É preciso estratégia e conhecimento técnico”, pontuou.

Influência local e parcerias ganham força

Entre as tendências, Ribeiro destacou o crescimento do uso de nano e microinfluenciadores — perfis com forte influência local, mesmo com poucos seguidores. “Eles têm credibilidade no bairro e muitas vezes aceitam permuta. É uma estratégia de baixo custo e alto impacto”, explicou.

Parcerias com negócios da região também foram apontadas como oportunidades. “Barbearias, academias, farmácias… trocar base de clientes é uma forma inteligente de crescer”, disse.

O desafio da mão de obra

Outro ponto crítico abordado foi a gestão de pessoas. Segundo Ribeiro, a escassez de mão de obra, especialmente entre os mais jovens, já impacta o setor e tende a se intensificar.

“A geração Z tem muitas opções e não quer ficar presa a rotinas de fim de semana. O negócio que vai prosperar é aquele cujo dono tiver maior capacidade de gerir pessoas”, afirmou.

Ele defendeu a criação de programas de incentivo para engajar equipes, incluindo bonificações por desempenho e participação nos resultados. “O colaborador precisa entender que, quanto mais o negócio vende, mais ele ganha também”, destacou.

Caminho passa por independência gradual

Por fim, Ribeiro reforçou que marketplaces continuam sendo importantes para aquisição de clientes, mas não devem ser o único canal de vendas. “Quem compra por essas plataformas não é seu cliente, é cliente do marketplace. O desafio é trazer esse consumidor para o seu canal próprio”, concluiu.

A palestra evidenciou que o equilíbrio entre canais, o uso inteligente de dados e o fortalecimento da relação com o cliente são fatores decisivos para o sucesso do delivery no cenário atual — tanto para o setor de alimentação fora do lar quanto para o varejo supermercadista.