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Varejo além da IA: interface digital, comportamento e relacionamento redefinem o futuro do setor
A última palestra do terceiro dia do palco Varejo & Negócios da Super Rio Expofood (SRE) trouxe uma provocação sobre o futuro do setor. Com o tema “Retail Trends 2026: o varejo para além da IA”, o sócio e VP de Estratégia da Binder, Lucas Daibert, apresentou reflexões e insights da NRF Retail’s Big Show, destacando que a transformação do varejo não está apenas na tecnologia, mas principalmente na mudança de comportamento do consumidor. A disputa pela interface digital Logo no início, Daibert apontou que o grande movimento atual do mercado gira em torno do conceito de “agentes”, sistemas de IA que passam a intermediar a relação entre consumidor e mundo digital. Segundo ele, durante mais de duas décadas, o Google dominou essa interface, concentrando buscas e monetizando por meio de anúncios. Esse cenário começou a mudar em 2022, com o surgimento do ChatGPT, que popularizou a inteligência artificial como interface direta de interação. “O que mudou não foi a IA em si, mas o fato de ela ter virado a nossa interface com o mundo digital. Quem controla essa entrada pode controlar toda a jornada, inclusive a compra”, explicou. Diante dessa mudança, o Google reposicionou sua estratégia, priorizando respostas dentro da própria plataforma e investindo em soluções como o Gemini, além de avançar em iniciativas como o Universal Commerce Protocol — um protocolo que busca integrar compras diretamente dentro das interfaces conversacionais. Do clique à conversa: a nova jornada de consumo A principal ruptura, segundo Daibert, está na forma como o consumidor toma decisões. Se antes a jornada era baseada em busca, comparação e clique, agora ela passa a ser guiada por intenção. “Você não busca mais um produto, você descreve o contexto. A IA entende sua necessidade e entrega opções prontas”, destacou. Dados apresentados na palestra indicam que cerca de 45% dos consumidores já utilizam IA generativa para apoiar decisões de compra — um número que tende a crescer com a integração total da jornada dentro dessas plataformas. Nesse cenário, o consumidor deixa de ser explorador e passa a atuar como validador, aprovando ou rejeitando sugestões feitas pela IA. Eficiência vira obrigação, não diferencial Com a IA assumindo o papel de curadoria, a excelência operacional deixa de ser diferencial e passa a ser pré-requisito. “A operação eficiente é o mínimo. Se você não tiver isso, nem entra no jogo”, afirmou. O novo diferencial competitivo, segundo o especialista, estará em fatores como confiança, relevância e conexão emocional com o consumidor. Marcas precisam evitar virar “reféns do algoritmo” Um dos principais alertas da palestra foi sobre o risco de empresas se tornarem dependentes das plataformas digitais. “Se você não tiver relação direta com o consumidor, vira passageiro do algoritmo. Ele decide se você aparece ou não”, disse. Nesse contexto, cresce a importância do modelo DTC (direct-to-consumer), no qual as marcas constroem relacionamento direto com o público, fortalecendo identidade e autonomia. Storytelling: a tecnologia mais antiga e ainda essencial Para Daibert, em um ambiente dominado por dados e tecnologia, o storytelling volta a ganhar protagonismo. Ele citou ideias do Yuval Noah Harari para explicar que a capacidade humana de se organizar em torno de histórias foi o que permitiu a evolução da sociedade — e continua sendo essencial para a construção de marcas. “As histórias são o que criam conexão e confiança. Isso não muda, mesmo com toda a tecnologia”, afirmou. Do marketing unilateral à construção coletiva Outro ponto destacado foi a transformação na relação entre marcas e consumidores. O modelo tradicional, baseado em comunicação unilateral, dá lugar a uma dinâmica mais aberta e colaborativa. Hoje, consumidores participam da construção da narrativa da marca, influenciando diretamente produtos e posicionamento. Casos apresentados na NRF mostram, por exemplo, produtos que se tornaram sucesso a partir de conteúdos espontâneos em redes sociais, reforçando o poder da influência distribuída. “Day trading” do consumidor: decisões em tempo real A velocidade das mudanças exige que empresas acompanhem o comportamento do consumidor em tempo real. Daibert comparou esse cenário ao “day trading”, em que decisões são tomadas com base em variações constantes. “O pulso do consumidor define o sucesso ou o fracasso. Fidelidade não existe — existe a ausência de algo melhor”, provocou. Nova lógica: empresas construídas de fora para dentro Com a abundância de dados, surge uma inversão na lógica de desenvolvimento de produtos e serviços. Em vez de criar internamente e lançar ao mercado, as empresas passam a construir soluções a partir do comportamento do consumidor. Essa abordagem permite uma visão mais profunda, comparada pelo especialista a uma “lente macro”, capaz de revelar detalhes antes invisíveis. Relacionamento como novo motor de crescimento Além da tecnologia e dos dados, o palestrante destacou o papel estratégico do relacionamento. Parcerias com fornecedores, influenciadores e até clientes passam a ser fundamentais para gerar valor. Exemplos apresentados incluíram: marcas que cocriam produtos com consumidores; empresas que transformam lojas em espaços de experiência; negócios que crescem por meio de ecossistemas colaborativos. Experiência e colaboração redefinem o varejo físico Casos internacionais mostraram como o varejo físico está se reinventando. Empresas estão transformando lojas em hubs de experiência, combinando vendas, serviços e parcerias. Um exemplo citado foi a Best Buy, que reverteu um cenário de crise ao transformar suas lojas em espaços de experimentação para marcas como Amazon, Samsung e Apple. A estratégia reforça um princípio simples, mas poderoso: competir não é fazer melhor o mesmo — é fazer o que o outro não faz. O varejo do futuro já começou Encerrando a palestra, Daibert destacou que o futuro do varejo não será definido apenas pela adoção de tecnologia, mas pela capacidade de adaptação das empresas a um novo comportamento de consumo. “A transformação não é sobre IA. É sobre pessoas. Quem entender isso primeiro sai na frente”, concluiu.
19/03/2026
Por dentro da asserj
Fé, propósito e impacto social marcam abertura do último dia da Convenção Américas na SRE Expo Food
A abertura do terceiro e último dia do palco Convenção Américas, na Super Rio Expofood (SRE), foi marcada por um encontro inspirador entre fé, empreendedorismo social e responsabilidade coletiva. O momento contou com a presença do Padre Omar e do David Hertz, fundador da Gastromotiva, em uma conversa mediada sobre o papel transformador do varejo supermercadista na sociedade. Supermercados como agentes de transformação social Durante o painel, foi destacado que os supermercados vão além de pontos de consumo e se consolidam como espaços de convivência e impacto social nas comunidades. Para David Hertz, o setor tem um papel estratégico na construção de uma sociedade mais justa. “Os supermercados têm uma função social e corporativa. Desde o colaborador no dia a dia até o processo de construção do alimento, há inúmeras possibilidades de gerar impacto positivo”, afirmou. O empreendedor também ressaltou a importância da articulação entre diferentes atores para viabilizar projetos de grande escala. Segundo ele, a falta de alinhamento político foi um dos fatores que dificultaram a continuidade de iniciativas da Gastromotiva em determinado momento. Fé e esperança como motores de transformação Em uma fala carregada de simbolismo, Padre Omar reforçou a importância da solidariedade e da ação prática diante das desigualdades sociais. “Tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber. A partir do Cristo, olhamos tudo com amor. Não desanime, precisamos alimentar a esperança”, declarou. O religioso também destacou a necessidade de ampliar oportunidades, especialmente para populações vulneráveis. “Em termos de serviço público, ainda carecemos de oportunidades. Iniciativas como programas de jovem aprendiz e ações voltadas à população em situação de rua são caminhos possíveis”, disse. A importância das políticas públicas e da ação coletiva Padre Omar trouxe ainda reflexões baseadas na doutrina social da Igreja, destacando três princípios fundamentais: solidariedade, bem comum e subsidiariedade. Segundo ele, a subsidiariedade, conceito que envolve a atuação conjunta de instituições, sociedade civil e terceiro setor, é essencial para suprir lacunas deixadas pelo poder público, sem eximir o Estado de sua responsabilidade. “Não há necessidade de existir fome em um país como o Brasil, com tanta riqueza e capacidade produtiva. Precisamos de políticas públicas consistentes, contínuas e bem estruturadas”, afirmou. Conexão humana no centro das soluções Em um dos momentos mais marcantes do encontro, David Hertz reforçou que o combate à fome vai além da distribuição de alimentos e passa pela reconexão entre as pessoas. “Não é a falta de alimento que nos limita, mas a incapacidade de nos reconhecermos no outro. O meu trabalho é alimentar a humanidade com humanidade”, destacou. O empreendedor também defendeu o fortalecimento do trabalho em rede como caminho para ampliar o impacto social. “Nosso papel não é apenas entregar soluções, mas construir governança para que mais pessoas possam fazer parte dessa transformação”, completou. Um chamado à ação Encerrando o encontro, os participantes reforçaram a importância da colaboração entre empresas, instituições e sociedade para enfrentar desafios estruturais como a fome e a desigualdade. A mensagem final foi clara: o varejo supermercadista, aliado a iniciativas sociais e à construção de políticas públicas eficazes, pode desempenhar um papel decisivo na promoção de um futuro mais justo e sustentável.
19/03/2026
Por dentro da asserj
Fabrício Carpinejar emociona público na SRE ao falar sobre conexão humana, propósito e relações em tempos digitais
Na Convenção das Américas, escritor relaciona excesso de tecnologia, cultura do descarte e falta de presença com desafios vividos por empresas do varejo e do food service
19/03/2026
Por dentro da asserj
Tecnologia, dados e estratégia: o caminho para vender mais e melhor
O terceiro dia do palco Varejo & Negócios da Super Rio Expofood (SRE) teve continuidade com a palestra “Somos todos vendedores: dados que movem o lucro”, ministrada por Priscila Ariani, da diretora de Marketing da Scanntech. A apresentação trouxe uma reflexão central: no varejo supermercadista, todas as áreas da empresa impactam diretamente as vendas e os dados são o elo que conecta estratégia, operação e resultado. Logo no início, a executiva destacou que o conceito de vendas vai além do setor comercial. “Toda a empresa está voltada para o mesmo núcleo, que começa com vendas. Não é apenas vender mais por vender, mas vender melhor, fidelizar o consumidor e aumentar a margem”, afirmou. Cultura orientada por dados A Scanntech, segundo Priscila, atua conectando-se via API aos sistemas dos varejistas, capturando informações de vendas diretamente dos caixas. Com isso, a empresa analisa dados “ticket a ticket”, formando uma base robusta de inteligência de mercado. Atualmente, a companhia lê cerca de R$ 1,1 trilhão em vendas por ano — o equivalente a aproximadamente 9% do PIB brasileiro, sendo R$ 971 bilhões concentrados no varejo supermercadista. “É uma base extremamente representativa, que permite entender o comportamento do shopper e transformar isso em eficiência operacional e aumento de margem”, explicou. A executiva reforçou que empresas orientadas por dados apresentam desempenho superior. Segundo ela, supermercadistas que utilizam a plataforma crescem, em média, até 9 pontos percentuais a mais do que aqueles que ainda tomam decisões baseadas apenas na intuição. Precificação estratégica: equilíbrio entre margem e competitividade Um dos exemplos práticos apresentados foi o impacto da precificação. Priscila destacou que o preço é um dos principais fatores para equilibrar competitividade e rentabilidade. A estratégia passa pela classificação de produtos em curvas A, B e C: Curva A: itens de alto giro e formadores de imagem de preço (cerca de 50% do faturamento); Curva B: produtos intermediários; Curva C: itens com menor impacto na percepção de preço. A partir dessa segmentação, um varejista pode definir estratégias específicas, como manter preços competitivos na curva A e trabalhar margens maiores nas demais. Com o uso de dados de mercado, é possível ajustar esses posicionamentos com precisão. “Sem tecnologia, é inviável monitorar milhares de itens e concorrentes. Com dados, o varejista deixa de ‘achar’ e passa a decidir com segurança”, destacou. Gestão de sortimento e impacto direto no resultado Outro case apresentado mostrou como a análise de dados pode melhorar o sortimento. Ao identificar produtos relevantes no mercado que não estavam presentes nas lojas, uma rede conseguiu otimizar categorias e aumentar a eficiência. O resultado foi um crescimento de 1% no faturamento, além de ganho adicional de 0,2 ponto percentual na margem. “Não se trata de ter tudo, mas de saber exatamente o que faz sentido ter e por quê”, explicou Priscila. Ruptura: o inimigo invisível das vendas A palestra também abordou o impacto da ruptura — quando o produto não está disponível na gôndola. Em um dos exemplos, uma rede apresentava índice de ruptura de 13%, quase o dobro da média de mercado, de 6,8%. O problema, muitas vezes, não era falta de produto, mas falhas operacionais, como estoque virtual ou itens fora da gôndola. “Cada ruptura representa venda perdida, cliente insatisfeito e perda de lealdade”, ressaltou. Com o uso de dados, a empresa conseguiu identificar falhas, corrigir processos de abastecimento e negociar melhorias com a indústria. O resultado foi a redução da ruptura para níveis abaixo da média do mercado e a reversão de queda nas vendas para crescimento acima do setor. Integração entre áreas impulsiona resultados A principal mensagem da palestra foi a necessidade de integração entre áreas como pricing, gestão de categorias e abastecimento. “Mesmo quem não está diretamente em vendas é responsável pelo resultado. Somos todos vendedores”, reforçou. Ao combinar apenas três frentes — precificação, sortimento e abastecimento —, o case apresentado mostrou crescimento de 2% no faturamento e aumento de 1 ponto percentual no lucro. Transformação cultural como diferencial competitivo Para Priscila, o maior desafio não é tecnológico, mas cultural. A adoção de uma mentalidade orientada por dados precisa partir da liderança e se espalhar por toda a organização. “Quando o varejista deixa a transformação por dados para depois, está deixando dinheiro na mesa. E o pior: outros não estão”, alertou. A executiva encerrou destacando que a tecnologia já está disponível — e que a diferença competitiva está na capacidade de utilizá-la de forma estratégica.
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